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A INFRAESTRUTURA HOSPITALAR E A FIXAÇÃO DE MÉDICOS BRASILEIR

Eu estive dias atrás em uma bela formatura de médicos no interior do Rio de Janeiro. Confesso que fiquei com um enorme saudosismo da minha cerimônia de graduação ao ver aquela juventude alegre e feliz com os seus canudos, que agora valiam um registro no conselho regional de medicina mais próximo. Porém, por trás daqueles vídeos de festas, churrascos, baladas, banhos de piscinas, jogos e outras alegres lembranças universitárias, existiam em cada uma das vidas daqueles sessenta formandos, longas histórias de sacrifícios. Eles viveram longe de casa com orçamento apertado e repúblicas ainda mais apertadas, tiveram longas horas de estudos, de solidão na companhia de livros, de intermináveis pesquisas na internet, de refeições mal feitas, de sonos mal dormidos. Também há histórias de romances terminados, de pais em desespero para pagar as contas dos filhos estudantes, de mães chorando no skipe vendo seus filhinhos magrinhos do outro lado da linha e tantas outras situações de sacrifício para se alcançar esta grande glória que é se formar em medicina.

Assim, a formatura dos novos médicos é um momento de vitória, mas também de reflexão sobre tudo que passaram de bom e ruim nestes seis anos de academia. Mais do que isso, de reflexão para onde irão exercer sua nova profissão. Existem inúmeros prefeitos de reduzidos municípios oferecendo pequenas fortunas para médicos recém-formados se fixarem e começarem a atender seus munícipes. Há espaço para eles nos ambulatórios, nos postos de saúde, nos serviços de medicina da família, nas emergências (hoje em profusão no formato de UPAs), e até nas maternidades – afinal as cidades precisam crescer e manter as verbas do fundo de participação dos municípios. Sinalizando com um salário inicial mensal de dez mil dólares aproximadamente, por sinal nada mal mesmo para padrões americanos, esta juventude, que acabou de deixar os bancos da faculdade de medicina, se sente mesmo tentada a começar a ganhar dinheiro rápido, afinal ela esperou muito por isso e merece.

Mas e a residência médica, a especialização, o mestrado, o doutorado ou até mesmo o sonhado pós-doutorado? Bem, aí depende de se estudar mais, ficar num grande centro, demorar um pouco mais para começar ganhar dinheiro. Muitos jovens acabam passando nas provas e fazendo uma boa residência. Estes dificilmente vão sair dos grandes centros, sobretudo pelas inúmeras oportunidades de crescimento e atualização. Após a residência, podem também decidir ir para pequenos municípios e, neste caso, ganhando bem mais por já ter um conhecimento mais profundo e específico. Talvez os dez mil se transformem agora em vinte mil dólares mensais.

Na maioria das vezes, haverá problemas semelhantes para o médico que fez a opção de se fixar nas entranhas deste país continental, tanto para o que optou em pegar seu diploma e correr para começar aatender ou para o que esperou para só ir após se especializar. Ambos, via de regra, enfrentarão falta de condições de trabalho nos aparelhos de saúde: área física deficiente, mão de obra qualificada inexistente, escassez de equipamentos, medicamentos e insumos, falta de segurança na porta de um pronto-socorro, dentre outras.

Assim, não basta dar uma carreira pública a um profissional médico, não basta dar um salário alto, não basta oferecer status de doutor a um simples graduado, não basta uma série de itens senão houver condição de trabalho. Para quem pedir uma segunda opinião? Cadê aquela pinça que eu aprendi a usar na faculdade ou na residência? Por que não tem o medicamento que prescrevi? Cadê o farmacêutico para eu discutir a interação medicamentosa? Existe esterilização segura? Tem condições seguras de isolamento para pacientes infectados? Tem engenharia clínica para calibrar os equipamentos? Tem unidades de cuidados intensivos para pacientes graves?

O Brasil terá problemas de aumento constante da população até pelo menos o ano de 2030, quando o envelhecimento da população alcançará aproximadamente quarenta milhões de pessoas (uma Argentina), além de uma sociedade ascendente cada vez mais exigente em cuidados de saúde. Adicionam-se a isso as dificuldades normais do segmento de saúde, como acesso, qualidade e financiamento. Então, temos como resultante um cenário não muito positivo para a nossa saúde nos próximos anos. O que fazer? Não podemos deixar de fazer o bom a pretexto de não podermos fazer o ótimo. Por isso, é importante darmos estruturas hospitalares mais modernas e adequadas, com equipamentos, utensílios e instrumentais de primeira linha, com bons enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, nutricionistas, administradores hospitalares e demais profissionais de saúde. O médico também precisa contar com sangue de qualidade para exercer bem a sua profissão, precisa confiar nos exames de análises clínicas que solicita, necessita de boas imagens para fechar diagnósticos e acompanhar tratamentos e precisam de processos que garantam a segurança, a qualidade da assistência e o conforto dos seus pacientes.

Além destes itens internos de segurança e qualidade, os profissionais de medicina, mesmo e principalmente em municípios pequenos, precisam de um sistema de referência e contra referência para encaminhar com rapidez os casos em que seus recursos se esgotem, por exemplo, serviços de neurologia, de oncologia, de psiquiatria, de nefrologia, de queimados, de cirurgia cardíaca, de cirurgia torácica, de cirurgia infantil e exames de maior complexidade, como ressonância magnética ou outros.

Também é importante fazermos bons projetos de hospitais, com arquitetos especializados em saúde, comprarmos bem os insumos de uso neste importante segmento, além de cuidarmos das infraestruturas das cidades, do saneamento, do meio ambiente, da educação, do transporte, do lazer, do trabalho e de tantos outros itens de cada município brasileiro.

Fazendo isto, nem precisaremos fazer programas para fixar médicos no interior: eles serão os primeiros a querer ir para estes municípios. E aí sim podemos fazer tranquilos um brinde aos novos formandos, aos recém-saídos das residências e mesmo aos médicos mais experientes, que decidirem sair dos grandes centros e irem exercer seu ofício em comunidades que ainda não contam com suas experiências. Tim-Tim!


José Cléber do Nascimento Costa é Administrador Hospitalar, mestre e MBA. É Diretor Geral do INDSH – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Social e Humano e Vice Presidente de Gestão Administrativa e Financeira da ABDEH – Associação Brasileira de Desenvolvimento do Edifício Hospitalar

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