Analítico


Coaching e mentoring em Saúde

26/06/2015


Confusão entre os termos impede as companhias de propor programas diferentes para o desenvolvimento dos seus funcionários

Por José Cléber do Nascimento Costa

Dias atrás encontrei um jovem executivo muito triste, bem diferente daquele rapaz feliz que havia encontrado um ano atrás. Naquele primeiro encontro, ele me relatou que trabalhava no financeiro da sede de uma Organização Social de Saúde (OSS), e havia sido promovido a diretor administrativo e financeiro em um dos hospitais da entidade; estava muito motivado, embora ansioso em mudar de cidade, ganhar muito mais dinheiro e abraçar um novo desafio. Já neste segundo encontro, ele estava perdido e sem rumo, havia pedido demissão. Questionei o que aconteceu e ele me respondeu que seu diretor imediato não lhe deu apoio, queria fazer falcatruas financeiras e usá-lo como laranja e, ainda por cima, não o motivava, embora fosse um executivo experiente. Só lhe restou pedir demissão. Este moço, de 33 anos, não recebeu nem coaching nem mentoring, atividades que ainda são muito negligenciadas na área da saúde brasileira. Assim, ele está enfrentando uma transição difícil de carreira, pois não sabe se deve buscar novos desafios como diretor, ou retomar a carreira em funções inferiores no segmento financeiro.

No mundo dos negócios há muita confusão entre os termos coaching/mentoring. Isso impede as companhias de propor programas diferentes para o desenvolvimento dos seus empregados. Como petisco deste artigo, posso afirmar que coaching está relacionado à aquisição de habilidades e conhecimentos – logo, voltado quase que exclusivamente para as áreas técnicas/profissionais, embora não despreze a área comportamental evidentemente. Já mentoring está relacionado a uma transformação que envolve muito mais que simples aquisição especifica de habilidades e conhecimentos. Em mentoring o objetivo é o desenvolvimento profissional via um mentor, alguém mais velho e experiente na mesma área, que foca no completo desenvolvimento do mentoree - aquele que é conduzido pelo mentor. Assim, mentoring é transformacional, diz respeito a relacionamentos, atitudes, e envolve tanto o lado profissional como o pessoal, via aconselhamento. Enquanto coaching pode treinar uma habilidade especifica no curto prazo, mentoring pode preparar uma pessoa para toda uma vida.

Programas de mentoring nunca devem ser inferiores a pelo menos nove meses e normalmente duram um ano; mas, sobretudo, fazem parte de uma filosofia empresarial de caráter permanente. O coaching exige feedback para o gestor do coachee – aquele que faz o programa de coaching - e pode ser medido com o ROI (retorno on investiment), via a mensuração de como a performance foi melhorada, crescimento de receitas, processos mais rápidos e com menor custo, maior resolução de problemas de clientes etc. Já mentoring não: é uma atividade pessoal e intransferível, entre o mentor e o mentoree; não é necessário dar retorno ao superior imediato, nem mensurar resultados para a organização. O mentoree precisa se sentir totalmente seguro e o mentor precisa ser um humano superior, que enxerga resultados, mas que também vê pessoas que precisam crescer, se desenvolver e vencer.

Coaches sempre são pagos pelo seu trabalho, já mentores nunca recebem remuneração. Trabalham por generosidade. Coaches focam em tópicos de negócios, enquanto mentores fazem um equilíbrio entre os negócios e a vida pessoal do mentoree. Programas de coaching podem ser desenvolvidos via softwares sofisticados, com muitas ferramentas eficazes, muitas delas que vieram da área de psicologia e só podem ser aplicadas por estes profissionais; enquanto mentoring normalmente acontece pessoalmente - face-to-face. Programas de coaching normalmente envolvem consultorias externas especializadas, enquanto os de mentoring devem fazer parte de uma filosofia interna de longo prazo, onde os mais novos aprendem com os mais experientes.

Embora todos os executivos de saúde tenham passado pelo banco de uma ou mais universidades, sendo estagiários, aderido a inúmeros programas de treinamento e tido superiores que nem gostam de se lembrar - de tão terríveis que eram - estes mesmos executivos, ao chegarem no topo da pirâmide, se esquecem de dar a mão para os mais jovens e a ajudá-los na construção de uma carreira de sucesso.

Minha carreira, por exemplo, foi iniciada no Grupo São Camilo, onde o Pe. Niversindo Antônio Cherubin mantinha um programa de estágio que formou inúmeros profissionais de Administração Hospitalar. Este exemplo permeia toda minha trajetória. Mais tarde, ao assumir a Superintendência do Grupo Santa Catarina, organizei com a minha equipe - e com total apoio das freiras associadas - um programa similar, que formou vários executivos, que até hoje ajudam a gestão deste importante grupo hospitalar brasileiro e de outros hospitais e unidades de saúde.

Mas o que ocorreu com este jovem executivo do início do nosso relato? Muito simples: não teve apoio. Não participou de um programa de coaching e muito menos de mentoring. Ficou abandonado. E será que só ele perdeu? Claro que não! A instituição perdeu um funcionário promissor e honesto. A área de saúde, talvez, perdeu um futuro excepcional executivo, que poderia dar uma contribuição ímpar a este cenário de calamidade e falta de gestão, com o qual nos deparamos nos quatro cantos deste imenso Brasil.

Se pararmos para refletir, temos que incentivar principalmente o mentoring na área de saúde brasileira, uma vez que quase não temos mais faculdades específicas de administração hospitalar; sendo que estes profissionais hoje se formam na prática e nos programas de pós-graduação, principalmente nos MBAs que se avolumam, sejam presenciais ou no formato EAD – Ensino a Distância. O mentoring sempre esteve presente na história da humanidade, sob formas variadas: como conselheiros, educadores, orientadores e modeladores de conduta; tanto no mundo ocidental como no oriental; tanto em instituições religiosas, como nos exércitos e demais organizações humanas. Antigamente reis e nobres contratavam mentores para cuidar do aprendizado e da educação dos seus filhos e protegidos; por que hoje abandonamos esta prática? Vamos repensar este importante tópico de gestão! Sempre é tempo! Em quem é mesmo que você está pensando em pegar na mão e ajudar?

Saiba mais:

José Cléber do Nascimento Costa: Sendo maior que a crise

Estudo BCH 2: Como engajar os médicos na gestão hospitalar

25º BCH: Aprenda como medir a qualidade da assistência do corpo clínico

 

 

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